Depois do hype: Diablo III

Diablo III
Confesso, não resisti. Dominado por anos de ansiedade, sucumbi ao demônio. Fascinado por promessas grandiosas, fiz sacrifícios financeiros inaceitáveis, tudo para obter um crânio do Senhor do Terror e livros que descreviam em detalhes todo o seu séquito infernal. Porém, depois de muito tempo vivendo em um verdadeiro inferno, me libertei — agora que finalmente encontrei a luz, finalmente vejo o quanto eu estava enganado.

Como muitos fãs de Diablo I e II, sucumbi ao hype causado pelo lançamento de Diablo III em maio deste ano. Após 12 anos de espera, qualquer promessa feita pela Blizzard era aceita sem qualquer julgamento aprimorado, e até mesmo a ausência de um modo PvP parecia algo inaceitável em um produto supostamente finalizado (afinal, eu nem curtia muito esse tipo de coisa).

Empolgado com o game, dediquei dezenas de horas ao mundo de Tristram, que novamente se via em busca de um salvador. Nem mesmo os retcons absurdos feitos na história principal me incomodavam: afinal, eu estava jogando DIABLO III, o jogo pelo qual eu esperava desde meus 14 anos de idade. Porém, passada a empolgação inicial, o senso crítico voltou a aparecer e me revelou algo que eu já sabia: esse é um título muito bom, mas não exatamente excelente.

O que deu errado?

O defeito de Diablo III não é sua narrativa fraca, sua jogabilidade repetitiva (porém competente) ou a falta de habilidades para os personagens. O grande problema do game reside no foco que a Blizzard quis dar ao “post-game”, aquele período que ocorre quando, após terminar a história principal, você continua jogando simplesmente para coletar itens cada vez mais poderosos e aumentar o nível de seu personagem.

Diablo III
Como forma de estimular que os jogadores usassem a casa de leilões (de preferência usando dinheiro real), a empresa estabeleceu um sistema de recompensas que só premia quem está disposto a quase que literalmente passar a vida em frente ao monitor. Encontrar itens raros parece mais um lance de sorte do que de habilidade, e as fórmulas usadas pela companhia fazem com que seja quase impossível encontrar equipamentos que realmente ajudem você a se tornar mais poderoso.

Com isso, o quesito diversão parece abandonar completamente o game, que passa a ser um simples trabalho. Não um trabalho divertido, no qual você faz o que gosta e ganha dinheiro com isso, mas sim um daqueles em que é preciso aguentar um chefe gritando em sua orelha enquanto você realiza tarefas que estão aquém de suas habilidades — ganhando quase nada para isso, para complementar.

O efeito Zynga

É difícil não estabelecer uma conexão entre o modelo de negócios incorporado pela Blizzard com aquele que a Zynga, desenvolvedora de jogos para Facebook, tornou sua marca principal. Quando você finalmente percebe que não vai encontrar nenhum item valioso por conta própria e decide recorrer à casa de leilões, incorre em uma atitude que parece bastante absurda: gastar dinheiro real para passar menos tempo jogando um game.

É sério: tal qual você compra moedas verdes para não ter que esperar sua energia recarregar em Citiville, você gasta 10 reais para comprar uma espada que só conseguiria obter caso passasse mais 20 horas em frente ao computador. O mais ridículo dessa história não é exatamente o investimento de dinheiro real, mas sim o fato de que você está fazendo isso simplesmente para passar mais 20 horas jogando em busca de outros itens raros — que, se depender da produtora do jogo, dificilmente vão surgir de maneira natural.

Alternativas existem

Volto a repetir: em essência, Diablo III está longe ser um jogo ruim. Ele simplesmente não é um título que, em suas condições atuais, justique o investimento de centenas de horas em busca de itens especiais que dificilmente virão.

Caso você ache divertido passar centenas de horas no mundo de Santuário em busca de recompensas escassas, certamente há algo de muito errado com você (ou sua situação financeira não lhe permite comprar outro jogo, algo que não é exatamente compreensível quando se leva em consideração alguns dos games free to play disponíveis atualmente no mercado).

Diablo III
Se você é daqueles que, como eu, gosta de um bom hack`n`slash, mas não quer ser punidos por gostar de um jogo, certamente Torchlight 2 é a opção mais atrativa disponível atualmente. Custando somente US$ 15, o game segue à risca a fórmula estabelecida em Diablo II, recompensando constantemente os jogadores com itens poderosos, o que estimula a experimentação com diferentes combinações de equipamentos.

Claro, também existem as alternativas mais genéricas (como a série Sacred), porém nenhuma delas consegue alcançar um equilíbrio tão bom entre jogabilidade, desafio e recompensas. Elas servem para mostrar que esse gênero específico de RPG de ação continua tendo seu lugar no mundo, mesmo que a Blizzard aparentemente tenha esquecido o que fez com que pessoas passassem anos investindo tempo e paciência em seus títulos anteriores.

O que aprendemos com isso? Que, independente das boas intenções na hora de analisar um game, expectativas pessoais e lembranças têm uma carga bastante pesada na hora de fazer um julgamento, que pode mudar conforme esses fatores são deixados de lado. E claro, que campeões não usam drogas.

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Uma resposta para Depois do hype: Diablo III

  1. Fabio disse:

    Experimenta o patch 1.05, Felipe. Essa questão de encontrar itens ficou bem melhor. Jogando pouco (algo em torno de 1h30 por dia durante 4 dias) eu encontrei 4 itens lendários. A chance de eles droparem aumentou bastante comparado aos patches anteriores.

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