King of Chinatown

Embora os games sejam antes de tudo um meio de entretenimento semelhante ao cinemas e aos livros, para muitos eles passam mais do que uma simples diversão. Há quem dedique não somente centenas de horas a um título, mas sim tenha como foco de uma vida inteira dominá-lo completamente, somente para poder afirmar com total convicção: sou o melhor do mundo no que faço.

King of Chinatown é um documentário sobre uma dessas pessoas. Conhecido mundialmente por uma derrota, Justin Wong devota toda a sua existência a provar que é capaz de derrotar qualquer adversário em jogos de luta. Porém, mais do que com o preconceito do público em geral, ele tem pela sua frente o obstáculo que ajudou a torná-lo famoso: Daigo Umehara.

Como o documentário bem lembra em seu início, a rivalidade entre Daigo e Wong começou em 2004 durante as semifinais do jogo Street Fighter III: Third Strike no torneio Evolution (maior competição do mundo de games de luta). Embora Justin estivesse pronto para derrotar seu adversário, um contra-ataque primoroso fez com ele fosse eliminado e tivesse que carregar o fardo de ficar conhecido somente por esse acontecimento.

Mais do que uma história pessoal

King of Chinatown pode ser encarado sob duas óticas diferentes. Por um lado, o filme faz uma análise bastante realista de como funcionam os campeonatos de jogos eletrônicos nos Estados Unidos (e por que não dizer no ocidente como um todo). Já sobre outra ótica (mais maniqueísta), o longa-metragem é um retrato da luta de Justin Wong para finalmente derrotar seu principal rival e, assim, provar a superioridade dos jogadores ocidentais sobre os orientais.

King of Chinatown
O que o documentário deixa evidente é que, apesar de os campeonatos de video game já movimentarem somas em dinheiro respeitáveis, eles ainda são habitados por “atletas”que possuem condições gerais de treinamento bastante amadoras. O que fica evidente é que mesmo organizações ditas sérias como a Empire of Arcadia operam basicamente contando com uma mistura de sorte, paixão e talento de alguns de seus membros — basta retirar um elemento dessa equação para que tudo desmorone.

É difícil não pensar no próprio Justin Wong como um rapaz que, por mais talentoso que seja, parece não ter muitas preocupações que vão além do próximo campeonato — característica que ele parece compartilhar com dezenas de garotos que não possuem a mesma fama ou os mesmos talentos. Nesse sentido, é fácil traçar um paralelo com o mundo do futebol: enquanto muitos sonham em virar o próximo Ronaldo ou Pelé, centenas de outros ficam pelo caminho e acabam sacrificando suas vidas para acabarem sem a fama e o dinheiro com que sonhavam.

Defeitos e qualidades

Apesar de ser um autêntico documentário, em muitos momentos parece que King of Chinatown segue um roteiro pré-determinado. Exemplo disso são as ocasiões em que surge Daigo, pintado como uma figura mítica que deve ser derrotada a qualquer custo — elemento que se torna mais forte pelo fato de o jogador japonês não falar inglês e possuir uma personalidade muito reservada em comparação a seus adversários norte-americanos.

King of Chinatown
Além disso, Triforce, dono do Empire of Arcadia, claramente é mostrado sobre uma ótica em que parece que ele simplesmente explora as qualidades de Wong para sobreviver. Embora seu lado humano transpareça em alguns momentos, fica claro que, se King of Chinatown possui alguém que ocupe o papel de “vilão”, esse personagem se encaixa lá sem muita dificuldade.

Muito além de Street Fighter

Um dos principais méritos do longa-metragem é que, apesar de seu foco em games, ele nunca vira uma produção dedicada somente a eles. Apesar de exibir partidas de Street Fighter IV, The King of Fighters e outros títulos famosos, os diretores gastam a maior parte do tempo apresentando e desenvolvendo os personagens que surgem no decorrer da história. Isso traz o benefício de permitir uma identificação maior com as pessoas que surgem durante a narrativa, além de evitar que o documentário se torne demasiadamente hermético.

King of Chinatown

Porém, nem só de qualidades vive a produção: além de apresentar tomadas bastante escuras em alguns momentos, a intenção de aumentar a rivalidade entre Justin Wong e Daigo Umehara parece artificial em vários momentos. Especialmente quando o jogador japonês toma o centro da ação, fica claro que não são os dois lados que encaram com a mesma paixão (ou importância) o número de vitórias e derrotas de cada um — algo que os realizadores preferem ignorar para manter seu roteiro funcional.

King of Chinatown definitivamente não é um documentário que vai ter apelo para quem não conhece nada do mundo dos jogos eletrônicos. Porém, para aqueles que fazem parte desse universo, ele fornece uma visão interessante sobre a maneira extremamente séria (embora nem sempre profissional) com que certos indivíduos lidam com esse meio de entretenimento.

 

 

 

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