Sobre “escutar de tudo um pouco”

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Confesso: sempre fiquei intrigado com pessoas que, questionadas sobre seu gosto musical, dizem simplesmente que “escutam de tudo um pouco”. Não que eu duvide que exista quem seja capaz de ser absolutamente eclético, apreciando as particularidades e ritmos dos diferentes gêneros que a humanidade criou e continua a criar — o “problema” é que, ao tentar me aprofundar nesses casos, quase sempre me deparo com a situação do indivíduo que simplesmente escuta “o que está no rádio” e mal sabe citar um artista ou canção específica.

Talvez eu esteja sendo muito chato (ok, eu sei, eu estou sendo muito chato), mas tenho dificuldades em lidar com quem lida com a questão dessa maneira. Ao menos em minha opinião, o tipo de música que uma pessoa costuma escutar se relaciona de maneira integral com sua personalidade e, em alguns casos, com a maneira como ela enxerga o mundo.

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Depois do hype: Diablo III

Diablo III
Confesso, não resisti. Dominado por anos de ansiedade, sucumbi ao demônio. Fascinado por promessas grandiosas, fiz sacrifícios financeiros inaceitáveis, tudo para obter um crânio do Senhor do Terror e livros que descreviam em detalhes todo o seu séquito infernal. Porém, depois de muito tempo vivendo em um verdadeiro inferno, me libertei — agora que finalmente encontrei a luz, finalmente vejo o quanto eu estava enganado.

Como muitos fãs de Diablo I e II, sucumbi ao hype causado pelo lançamento de Diablo III em maio deste ano. Após 12 anos de espera, qualquer promessa feita pela Blizzard era aceita sem qualquer julgamento aprimorado, e até mesmo a ausência de um modo PvP parecia algo inaceitável em um produto supostamente finalizado (afinal, eu nem curtia muito esse tipo de coisa).

Empolgado com o game, dediquei dezenas de horas ao mundo de Tristram, que novamente se via em busca de um salvador. Nem mesmo os retcons absurdos feitos na história principal me incomodavam: afinal, eu estava jogando DIABLO III, o jogo pelo qual eu esperava desde meus 14 anos de idade. Porém, passada a empolgação inicial, o senso crítico voltou a aparecer e me revelou algo que eu já sabia: esse é um título muito bom, mas não exatamente excelente.

O que deu errado?

O defeito de Diablo III não é sua narrativa fraca, sua jogabilidade repetitiva (porém competente) ou a falta de habilidades para os personagens. O grande problema do game reside no foco que a Blizzard quis dar ao “post-game”, aquele período que ocorre quando, após terminar a história principal, você continua jogando simplesmente para coletar itens cada vez mais poderosos e aumentar o nível de seu personagem.

Diablo III
Como forma de estimular que os jogadores usassem a casa de leilões (de preferência usando dinheiro real), a empresa estabeleceu um sistema de recompensas que só premia quem está disposto a quase que literalmente passar a vida em frente ao monitor. Encontrar itens raros parece mais um lance de sorte do que de habilidade, e as fórmulas usadas pela companhia fazem com que seja quase impossível encontrar equipamentos que realmente ajudem você a se tornar mais poderoso.

Com isso, o quesito diversão parece abandonar completamente o game, que passa a ser um simples trabalho. Não um trabalho divertido, no qual você faz o que gosta e ganha dinheiro com isso, mas sim um daqueles em que é preciso aguentar um chefe gritando em sua orelha enquanto você realiza tarefas que estão aquém de suas habilidades — ganhando quase nada para isso, para complementar.

O efeito Zynga

É difícil não estabelecer uma conexão entre o modelo de negócios incorporado pela Blizzard com aquele que a Zynga, desenvolvedora de jogos para Facebook, tornou sua marca principal. Quando você finalmente percebe que não vai encontrar nenhum item valioso por conta própria e decide recorrer à casa de leilões, incorre em uma atitude que parece bastante absurda: gastar dinheiro real para passar menos tempo jogando um game.

É sério: tal qual você compra moedas verdes para não ter que esperar sua energia recarregar em Citiville, você gasta 10 reais para comprar uma espada que só conseguiria obter caso passasse mais 20 horas em frente ao computador. O mais ridículo dessa história não é exatamente o investimento de dinheiro real, mas sim o fato de que você está fazendo isso simplesmente para passar mais 20 horas jogando em busca de outros itens raros — que, se depender da produtora do jogo, dificilmente vão surgir de maneira natural.

Alternativas existem

Volto a repetir: em essência, Diablo III está longe ser um jogo ruim. Ele simplesmente não é um título que, em suas condições atuais, justique o investimento de centenas de horas em busca de itens especiais que dificilmente virão.

Caso você ache divertido passar centenas de horas no mundo de Santuário em busca de recompensas escassas, certamente há algo de muito errado com você (ou sua situação financeira não lhe permite comprar outro jogo, algo que não é exatamente compreensível quando se leva em consideração alguns dos games free to play disponíveis atualmente no mercado).

Diablo III
Se você é daqueles que, como eu, gosta de um bom hack`n`slash, mas não quer ser punidos por gostar de um jogo, certamente Torchlight 2 é a opção mais atrativa disponível atualmente. Custando somente US$ 15, o game segue à risca a fórmula estabelecida em Diablo II, recompensando constantemente os jogadores com itens poderosos, o que estimula a experimentação com diferentes combinações de equipamentos.

Claro, também existem as alternativas mais genéricas (como a série Sacred), porém nenhuma delas consegue alcançar um equilíbrio tão bom entre jogabilidade, desafio e recompensas. Elas servem para mostrar que esse gênero específico de RPG de ação continua tendo seu lugar no mundo, mesmo que a Blizzard aparentemente tenha esquecido o que fez com que pessoas passassem anos investindo tempo e paciência em seus títulos anteriores.

O que aprendemos com isso? Que, independente das boas intenções na hora de analisar um game, expectativas pessoais e lembranças têm uma carga bastante pesada na hora de fazer um julgamento, que pode mudar conforme esses fatores são deixados de lado. E claro, que campeões não usam drogas.

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King of Chinatown

Embora os games sejam antes de tudo um meio de entretenimento semelhante ao cinemas e aos livros, para muitos eles passam mais do que uma simples diversão. Há quem dedique não somente centenas de horas a um título, mas sim tenha como foco de uma vida inteira dominá-lo completamente, somente para poder afirmar com total convicção: sou o melhor do mundo no que faço.

King of Chinatown é um documentário sobre uma dessas pessoas. Conhecido mundialmente por uma derrota, Justin Wong devota toda a sua existência a provar que é capaz de derrotar qualquer adversário em jogos de luta. Porém, mais do que com o preconceito do público em geral, ele tem pela sua frente o obstáculo que ajudou a torná-lo famoso: Daigo Umehara.

Como o documentário bem lembra em seu início, a rivalidade entre Daigo e Wong começou em 2004 durante as semifinais do jogo Street Fighter III: Third Strike no torneio Evolution (maior competição do mundo de games de luta). Embora Justin estivesse pronto para derrotar seu adversário, um contra-ataque primoroso fez com ele fosse eliminado e tivesse que carregar o fardo de ficar conhecido somente por esse acontecimento.

Mais do que uma história pessoal

King of Chinatown pode ser encarado sob duas óticas diferentes. Por um lado, o filme faz uma análise bastante realista de como funcionam os campeonatos de jogos eletrônicos nos Estados Unidos (e por que não dizer no ocidente como um todo). Já sobre outra ótica (mais maniqueísta), o longa-metragem é um retrato da luta de Justin Wong para finalmente derrotar seu principal rival e, assim, provar a superioridade dos jogadores ocidentais sobre os orientais.

King of Chinatown
O que o documentário deixa evidente é que, apesar de os campeonatos de video game já movimentarem somas em dinheiro respeitáveis, eles ainda são habitados por “atletas”que possuem condições gerais de treinamento bastante amadoras. O que fica evidente é que mesmo organizações ditas sérias como a Empire of Arcadia operam basicamente contando com uma mistura de sorte, paixão e talento de alguns de seus membros — basta retirar um elemento dessa equação para que tudo desmorone.

É difícil não pensar no próprio Justin Wong como um rapaz que, por mais talentoso que seja, parece não ter muitas preocupações que vão além do próximo campeonato — característica que ele parece compartilhar com dezenas de garotos que não possuem a mesma fama ou os mesmos talentos. Nesse sentido, é fácil traçar um paralelo com o mundo do futebol: enquanto muitos sonham em virar o próximo Ronaldo ou Pelé, centenas de outros ficam pelo caminho e acabam sacrificando suas vidas para acabarem sem a fama e o dinheiro com que sonhavam.

Defeitos e qualidades

Apesar de ser um autêntico documentário, em muitos momentos parece que King of Chinatown segue um roteiro pré-determinado. Exemplo disso são as ocasiões em que surge Daigo, pintado como uma figura mítica que deve ser derrotada a qualquer custo — elemento que se torna mais forte pelo fato de o jogador japonês não falar inglês e possuir uma personalidade muito reservada em comparação a seus adversários norte-americanos.

King of Chinatown
Além disso, Triforce, dono do Empire of Arcadia, claramente é mostrado sobre uma ótica em que parece que ele simplesmente explora as qualidades de Wong para sobreviver. Embora seu lado humano transpareça em alguns momentos, fica claro que, se King of Chinatown possui alguém que ocupe o papel de “vilão”, esse personagem se encaixa lá sem muita dificuldade.

Muito além de Street Fighter

Um dos principais méritos do longa-metragem é que, apesar de seu foco em games, ele nunca vira uma produção dedicada somente a eles. Apesar de exibir partidas de Street Fighter IV, The King of Fighters e outros títulos famosos, os diretores gastam a maior parte do tempo apresentando e desenvolvendo os personagens que surgem no decorrer da história. Isso traz o benefício de permitir uma identificação maior com as pessoas que surgem durante a narrativa, além de evitar que o documentário se torne demasiadamente hermético.

King of Chinatown

Porém, nem só de qualidades vive a produção: além de apresentar tomadas bastante escuras em alguns momentos, a intenção de aumentar a rivalidade entre Justin Wong e Daigo Umehara parece artificial em vários momentos. Especialmente quando o jogador japonês toma o centro da ação, fica claro que não são os dois lados que encaram com a mesma paixão (ou importância) o número de vitórias e derrotas de cada um — algo que os realizadores preferem ignorar para manter seu roteiro funcional.

King of Chinatown definitivamente não é um documentário que vai ter apelo para quem não conhece nada do mundo dos jogos eletrônicos. Porém, para aqueles que fazem parte desse universo, ele fornece uma visão interessante sobre a maneira extremamente séria (embora nem sempre profissional) com que certos indivíduos lidam com esse meio de entretenimento.

 

 

 

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Notas Sobre Gaza – Joe Sacco

Notas Sobre GazaInterpretar Notas Sobre Gaza como um simples lançamento que se aproveita da popularidade recente dos quadrinhos vendidos em livraria é subestimar a produção. Em um mundo povoado por produções fantasiosas, a obra de Joe Sacco é um retrato duro da realidade dura enfrentada por um povo diariamente há mais de 50 anos.

O livro se trata de uma abrangente reportagem que tenta recriar a memória de dois eventos importantes para entender o conflito entre árabes e israelenses, os extermínios de civis ocorridos nas cidades de Khan Younis e Rafah, ambos considerados meras notas de rodapé da história. Os momentos do passado são alternados com aqueles que se passam no presente e mostram detalhes sobre a busca feita pelo jornalista para obter maiores detalhes sobre os acontecimentos.

Conflitos esquecidos

Notas Sobre GazaAlém de usar como fontes moradores da região, Sacco se vale de documentos oficiais produzidos por Israel, relatórios da ONU e relatos de agências de paz independentes que atuam na região. Com isso, são mostrados os pontos de vista bastante distintos que os dois lados do conflito têm sobre o acontecimento – enquanto Israel nega qualquer tipo de crueldade, os palestinos e agências de paz narram histórias de famílias inteiras que foram mortas como uma forma de divertir soldados sádicos que nada tinham a perder.

Em seus trabalhos anteriores, especialmente no premiado Palestina (que recentemente ganhou uma edição especial no Brasil), o jornalista deixa claro que não acredita nas ideias propostas pelo Sionismo. O mesmo tom se mantém em Notas Sobre Gaza, em que são feitas duras críticas ao estado de Israel.

Felizmente, o jornalista tem bom gosto e talento suficientes para não usar isso como justificativa para a ação de terroristas – a obra deixa bem claro o posicionamento contrário a qualquer tipo de iniciativa que leve à morte de qualquer pessoa, seja ela judeu ou palestino.

Arte detalhada

O estilo de arte utilizado por Sacco mistura elementos realistas com traços caricatos, especialmente na retratação dos rostos dos personagens. Isso garante um efeito mais expressivo aos protagonistas da obra, permitindo que o leitor se identifique melhor com as emoções demonstradas conforme a narrativa prossegue.

Notas Sobre GazaTodos os quadros de Notas Sobre Gaza são em preto e branco, abusando de uma técnica conhecida como “cross-hatching”, ou rachura. Isso faz com que as cenas retratadas ganhem uma profundidade surpreendente, característica mais marcante de todas as obras produzidas pelo artista.

Narrativa densa

A leitura de Notas Sobre Gaza é um processo que exige bastante atenção e até certa dose de esforço por parte do leitor. A quantidade de informações disponíveis é muito grande, e não é difícil se ver perdido em meio às diversas referências, nomes e situações que se alternam de forma constante na obra.

Para quem se acostuma com o estilo denso da obra, o resultado final é extremamente satisfatório. A sensação que fica ao final da leitura é a de se ter acompanhado em primeira mão um ótimo documentário sobre o conflito da Palestina. Esse ótimo livro-reportagem é essencial para qualquer fã de quadrinhos adultos, em especial para aqueles que se interessam por capítulos da história que passariam facilmente despercebidos por olhos menos atentos.

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Eric Martin – Mr. Vocalist 2

Eric Martin – Mr. Vocalist 2Encontrar algum cantor ou banda que não tenha na carreira um álbum de qualidade no mínimo duvidosa é tarefa quase impossível. Pena que há aqueles que, depois de certo ponto, parecem tornar isso uma regra devido à necessidade de pagar contas ou simplesmente por acreditar que estão investindo no caminho certo.

O segundo volume da série Mr. Vocalist repete quase todos os erros do primeiro, apostando em diversas composições que pouco combinam com as habilidades vocais de Eric Martin. Fruto de uma votação entre os fãs japoneses do vocalista, o álbum reúne algumas das baladas mais famosas dos últimos anos em interpretações, infelizmente, pouco inspiradas. Continuar lendo

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Eric Martin – Mr. Vocalist

Eric Martin – Mr. VocalistNão é preciso acompanhar de perto a carreira solo de Eric Martin para saber que o vocalista do Mr. Big se destaca quando o assunto são baladas românticas. Prova disso é o maior (e único) sucesso de sua banda principal, a grudenta To Be With You, que até hoje é faixa obrigatória em todas as apresentações realizadas pelo grupo.

Aproveitando a habilidade do vocalista quando o assunto são letras românticas, a divisão japonesa da Sony decidiu convidá-lo para participar do projeto Mr. Vocalist. O álbum é uma reunião de diversas músicas famosas no Japão, devidamente traduzidas e adaptadas para o inglês, muitas vezes de forma quase literal. Continuar lendo

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3DS: um tiro no pé da Nintendo?

3DS: um tiro no pé da Nintendo?Todos que acompanham o mercado de jogos eletrônicos sabem que, quando o assunto é videogames portáteis, ninguém consegue bater a Nintendo. Desde a época do primeiro GameBoy, a companhia tem controle total do mercado, tendo estabelecido os diversos modelos do Nintendo DS como a peça de hardware mais vendida na história.

Com a chegada do 3DS, a expectativa de muitos é que a situação permaneça exatamente a mesma. Mesmo a Sony e seu poderoso NGS parecem incapazes de abalar o império estabelecido pela companhia, que após o sucesso do Wii, atualmente conta com o apoio de algumas das produtoras mais importantes da indústria. Continuar lendo

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